terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

ESPECIAL HOLANDA 1974: A ARTE DE UM CARROSSEL

Nessa parte, falarei sobre como foram as escolhas de Michels, quem ele escolheu, e porque ele escolheu as peças. Além disso, analisarei taticamente a função dos mais utilizados durante a Copa:

PARTE 4 (1): AS ESCOLHAS DE MICHELS

A ENTRADA DO TÉCNICO

A federação holandesa teve ousadia. Trocou o tcheco Frantisek Fadrhonc, rebaixou-o a auxiliar e trouxeram o então desenvolvedor do Futebol Total, Rinus Michels. O técnico assumiu com uma seleção até então classificada para a Copa de 74 após a não-presença em 70 e com o peso de ter o que a imprensa local considerava a maior geração da história do país. Ele sabia da responsabilidade que tinha e vendo isso agarrou a chance com unhas e dentes.

Mas ele mal sabia como se situava o elenco. Principalmente composto pelas duas maiores forças do futebol do país, Ajax e Feynoord, o esquadrão se rachava entre os que apoiavam o estilo de jogo do primeiro e o do segundo. O tricampeão europeu tinha como principais nomes Cruyff, Neeskens e Keizer, enquanto o campeão nacional tinha Van Hanegen, Jansen e De Jong. Muita disputa, muitos conflitos internos e Michels tinha que resolver isso tudo.

Defensor do estilo do time de Amsterdam, o técnico bateu na mesa, disse que se usaria do Futebol Total e que os que não concordassem que saíssem da equipe. Era o início do comando que entraria para a historia do futebol.

OS TRES AMISTOSOS DE MICHELS


O primeiro jogo com o General como treinador não teve o resultado esperado. Empate de 1 a 1 com a Austria e time notavelmente jogando com certa desatenção a partida. Novos jogadores foram convocados e o time jogou num 4-2-4/4-3-3 mais ou menos assim:




Inicio da base do time da copa estava sendo construído. No primeiro jogo, que deu em empate, Rep e Resenbrink, jogadores de muita resistencia abriam o campo e acompanhavam o lateral adversario na defesa, deixando a dupla Cruyff e Geels mais a frente, quase num 4-4-2. Michels apostou no entrosamento de De Jong e Van Hanegen na ocupação do terreno central e liberou Neeskens para fazer o combate mais acima, ajudando na tal linha de impedimento tão conhecida. O apoio de Notten e Krol eram cobertos pelos volantes, que tinham bom senso de posicionamento. No gol, preferiu Schrijvers aos outros.

Já no segundo jogo, goleada pra cima da Argentina e um time mais com a cara do que jogou a copa. Tirando os zagueiros, o resto todos foram parte dos 11 titulares. Suurbier e Krol mostravam o vigor físico voando nos lados e apoiavam sabendo que a cobertura pelos volantes Van Hanegen e Haan seria eficiente. Mais a frente deles, Neeskens chegava com muita força ao ataque, no espaço do centroavante, este que não existia devido a Cruyff. Peça chave do time, Michels deu liberdade a ele, abrindo espaços nas defesas adversárias, acionando a dupla Rep e Resenbrink. Notem que para o gol, o técnico apostou no até então desconhecido Jongbloed, que não era muito técnico nos fundamentos de goleiro, mas que tinha qualidade com a bola nos pés e sabia fazer a cobertura da defesa, o que facilitava a subida dela.

Já no terceiro jogo (abaixo), mais testes, insistencia no 4-3-3 e mais um empate, dessa vez contra a Romenia. Sem Cruyff, apostou-se em Geels, Keizer e Resenbrink na frente e num trio de meias com De Jong, Neeskens e Van Hanegen com muita rotação, confundindo adversários. Ja atrás, mais um problema. Israel se lesionou seriamente, e Michels teve de optar por uma dupla improvisada de volantes: Haan e Jansen. Observe:



OS PROBLEMAS QUE MICHELS TEVE

Se alguem acha que foi de uma hora para outra que o Carrossel Holandes se montou, engana-se completamente. Foi muito difícil a vida do treinador, já que teve uma série de problemas na convocação de jogadores chaves. Michels perdeu algumas peças importantes como o ótimo goleiro Van Beveren, que por problemas com Cruyff pediu para não ser mais convocado, o lateral Drost, que abdicou da seleção após as eliminatórias, os atacantes Pahlplatz e Bromkamp, que seguiram o mesmo caminho, o meia Muhren, que devido a uma doença do filho largou o futebol e os tres zagueiros que mais jogavam: Hulshoff, Mansveld e Israel, com lesões. Isso fez com que o time que viria a jogar com o Uruguai tivessem dois improvisados na defesa e um 11 inicial que jamais havia jogado junto.

CONVOCAÇÃO

Abaixo, vemos os 22 jogadores que Michels escolheu para a relação final da Copa:


Back: Van Ierssel, Cruyff, Jongbloed, Schrijvers, Haan, Rijsbergen,
Neeskens, Israël, Keizer, Treytel, Krol, Suurbier, Van Hanegem.
Front: Jansen, Rep, Willy van de Kerkhof, René van de Kerkhof, 
Geels, Rensenbrink, Strik, Vos, De Jong. 


Como será que isso encaixou tão perfeitamente? Foi magica? Veremos na segunda metade desse post, em que falarei sobre a função tática individual dos escolhidos de Michels. Sairemos um pouco do painel histórico e entraremos no que interessa!!! Abraços!







sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ESPECIAL HOLANDA 1974: A ARTE DE UM CARROSSEL

Nessa parte do especial, falarei sobre como foram os anos que antecederam a copa de 1974 das principais peças que compuseram o carrossel. Disfrutem:

PARTE 3: O PRÉ-COPA DAS PRINCIPAIS PEÇAS DO CARROSSEL

Os anos que antecederam a copa de 1974 foram de muitas conquistas para o futebol Holandes. Na Liga dos Campeões, últimos quatro anos de domínio dos neerlandeses, com um título do Feyenoord em 1970 e tres títulos do Ajax no trienio 71-72-73. Domínio absoluto por parte dos times, porém a seleção ainda cambaleava e muito.

FEYENOORD 

Primeiro campeão europeu holandês da historia


O já campeão holandês da temporada de 1968-1969 vinha para uma Liga dos Campeões motivado para ganha-la após, no ano anterior, o rival Ajax ter perdido a final para o Milan. No comando do time, uma troca para lá de ousada: o então treinador Ben Peeters foi rebaixado de novo para as categorias de base e trouxeram o Austríaco Ernst Happel. Brilhante técnico que encontrou um elenco sólido, coeso, equilibrado, de muito potencial e de reforços como o lateral esquerdo Van Duivenbode, dispensado do Ajax.

Na Liga dos Campeões, evoluíram jogando um futebol ofensivo e muito objetivo. Após a perda do campeonato holandês para o rival, se concentraram no torneio continental e foram pra cima dos adversários. Happel fixou um 4-3-3, novidade para uma época onde se predominava o 4-2-4. Ao perceber que o domínio do meio campo influenciava e muito na partida, o treinador recuou um jogador do ataque e ganhou muito mais controle da pelota. O time ficava mais ou menos assim:


O time acima foi o que jogou a final contra o Celtic. O goleiro titular era Treytel, constantemente convocado para a seleção, que não participou da partida para o lugar de Graafland, goleiro de muita presença física e de qualidade no 1vs1. Happel apostou em laterais mais marcadores como Romeijn e Van Duivenbode, mas que quando subiam eram eficientes. No miolo de zaga (Israel e Laseroms), uma dupla que, apesar de as vezes ser ríspida demais defendendo, sabia manejar a pelota e dava qualidade a saída, sabendo se usar tanto da bola curta no tripe de meio campo, como na bola longa nos pontas. 

No setor de meio de campo, dois dos três que viriam a compor o centro do Carrossel holandês. O primeiro deles era Jansen, motorzinho do time, o jogador mais versátil. Veloz e baixinho, tinha uma visão de jogo diferenciada e sabia atacar muito bem o espaço que os atacantes liberavam. O segundo era Van Hanegen,  meia canhoto de muita cadencia, ritmo lento e que gostava de explorar o lado esquerdo apoiando quem viesse por aquele corredor. O terceiro era o Austriaco Hasil, que tinha muita qualidade no passe, deixando o trio em ótimas condiçoes muitas vezes.

Ja no ataque, dois pontas velozes e importantes para o tambem esquema de circulação veloz de Happel. Wery pela direita foi importantíssimo fazendo gols chaves, como o da final e Mouljin essencial para desmontar as defesas adversárias com seus dribles desconcertantes. Para muitos, esse ultimo é o maior atacante da historia do clube. No centro, o sueco Kindvall se destacava por sempre se posicionar muito bem e fazer muito gol.

Kindvall e o capitão Israel com a taça

Ernst Happel, após ganhar mais um holandes em 1971-1972, viria sair dois anos depois para a entrada de Wiel Coerver, técnico estudioso e que possuia métodos próprios e diferentes de treinamento, de muito enfase no técnico-tático de forma progressiva, desde treinos simplíssimos a outros muito complexos. Seu método encantou o grupo e fez o clube retomar o caminho das vitórias.

Com um ataque massivo de 96 gols em 34 jogos, voltaram a ganhar o campeonato nacional após perderem para o Ajax no ano anterior. Com um time ainda veloz, mas mais flexível taticamente e com muito mais jogadas treinadas. Paralelamente ao torneio, disputavam a Copa da UEFA, essa que venceram com imponência, após uma dura batalha contra os ingleses do Tottenham. Com o mesmo 4-3-3, entraram em campo assim:



Mais flexivel, o Feyenoord de Coerver apostava em laterais de muita explosao física e que se superavam facilmente na marcação. Ambos, Rijsbergen e Vos, viriam a ser convocados por Michels. Ao lado do xerife Israel, o técnico consolidou o então zagueiro reserva Van Daele, que gostava muito de sair para fazer número no meio campo.

Na meiúca, os mesmos Jansen e Van Hanegen, com mais liberdade, se mantiveram, mas ao inves de Hasil, um outro futuro convocado viria a compor o setor. Theo de Jong tinha boa noção de ataque vertical e incorporava a linha de frente com muita facilidade, além de cobrir as subidas de Jansen quando ele resolvia ir mais a frente. Um pouco de "Futebol Total" do rival no Feyenoord.


Com o envelhecimento dos atacantes campeões continentais, o técnico apostou num trio novo. Hassel pela direita lembrava muito Mouljin com seus dribles e Kristensen, mais versatil, buscava muito a bola no meio dando espaço para as penetrações vindas de trás. No meio, o holandês Schoenmaker fez historia, sendo o artilheiro daquele torneio.


Muitos jogadores viriam a ser chamados para compor o esquadrão da copa de 1974, mas mesmo assim não eram a maioria. O rival viria a ser a base da seleção de Michels, até por ter mais jogadores de confiança.


AJAX 

Existe vida pós-Rinus Michels

Após o título de 1971 da Liga dos Campeões, Michels saiu e colocaram o romeno Stefan Kovacs no lugar. Quem imaginava que o "Futebol Total" iria parar devido a troca de comandante se enganou. O novo treinador, de filosofia diferente de Michels, deu mais liberdade a seus jogadores e viu o time, em evolução constante, atingir o auge do ideal que seu antecessor pensava. Deu mais liberdade para os defensores subirem, sabendo que os meias poderiam cobri-los. Abaixo, as setas mostram perfeitamente as PERMUTAS VERTICAIS que se destacavam:


Ao escolher Blankenburg no lugar do iugoslavo Vasovic, Kovacs adicionou intensidade física e explosão vindo de trás, mantendo Hulshoff como o ultimo homem. Efetivou o então moleque Krol na esquerda e continuou com o bom trabalhador Suurbier na direita, dois laterais que subiam muito para apoiar a frente. No meio, apostou em tres jogadores muito versáteis e de ótima leitura de espaço: Muhren, Neeskens e Haan mantinham a intensidade tanto para fazer a cobertura de eventuais subidas dos homens de trás como para atacar o espaço que os homens da frente liberavam. Na frente, apostou na experiencia do bom Keizer, que buscava bem a bola atrás e gerava espaço livre a  ser atacado e no crescente atacante Johnny Rep, que corria o lado direito todo, abrindo campo para as entradas interiores dos homens de trás.

Notem que está faltando falar do principal: Johan Cruyff. Kovacs foi genial ao dar total liberdade para o craque em campo e desocupar o espaço que supostamente seria do atacante central, dificultando a vida dos zagueiros adversários, que perdiam a referencia de marcação. Sempre dando opção de passe, Cruyff tomou a batuta de vez pra si e explodiu como gênio, atuando em todas as faixas do campo. 

Cruyff vindo buscar bola atrás (verde) gerando espaço na frente

Com o "Futebol Total" estourado, Ajax dominou o continente nos dois anos consequentes e se tornou tri-campeão europeu. Inclusive uma partida pode-se destacar entre as demais por ver a pureza do modelo de jogo. Final de 73, Juventus e Ajax. Domínio total do meio campo, laterais trocando de lado, ultrapassando, zagueiro central com 3 finalizaçoes a gol, Neeskens e Cruyff se multiplicavam no campo. ARTE!

No final de 1973, apos a saida de Kovacs, a magia começou a cair. Numa eleição para capitão, Cruyff perdeu para Keizer e, insatisfeito, viria a sair da equipe e seguir os passos de seu mestre indo para o Barcelona.

Os frutos da semente que Michels ajudou a plantar estavam sendo colhidos, mas ainda não era o pico. Precisava-se fazer o mundo saber do projeto. Todo o conceito desenvolvido, a arquitetura perfeita dos espaços do campo, abrindo-o quando atacavam e diminuindo-o quando defendiam, as intensas trocas de posições, o pressing, tudo isso seria utilizado mais a frente. Por ja conhecer grande parte dos jogadores e querer implantar o sistema na equipe, quando o técnico foi para a seleção, fez do Ajax a base da equipe.

Mas engana-se quem pensa que mesmo com essa safra toda de Ajax e Feyenoord, a seleção holandesa ia bem nesse período entre 1970 e 1973...

SELEÇÃO 

Mal das pernas

Após a não-classificação para a copa de 1970, a federação holandesa contratou o tcheco Frantisek Fadrhonc para assumir o lugar do alemão Georg Kessler. Estreou em 1970 mesmo com uma derrota para a Iugoslavia por 1 a 0 nas preliminares para a Eurocopa. Seguindo os padrões das duas principais equipes do país, nos dois primeiros anos, começou com um 4-2-4 e ao perceber que perdia meio campo com isto, utilizou um 4-3-3 com duas variações:

Notem como fica somente 2 no setor de meio, que acabam se sobrecarregando





















Já nas duas variações de 4-3-3, o tcheco moldou o time segundo o posicionamento de seu craque Cruyff. Quando o utilizava pelo centro, fazia que nem Michels e Kovacs e dava liberdade de atuação por todo o campo. Quando utilizava um centroavante, o posicionava ao lado direito, ja que Keizer era absoluto do lado esquerdo.

Com a decaída de alguns jogadores e o crescimento de outros, entre eles Rep, Haan e Resenbrink, a base foi mudando. Com o vistoso futebol do Ajax e o estilo de jogo vitorioso do Feyenoord, a cobrança sobre o treinador aumentou, já que passados dois anos, poucos resultados vieram. A não-classificação para as fases finais da Eurocopa de 1972 até ameaçou ele no cargo, mas a federação decidiu mante-lo.

Durante todo 1973, se realizaram as eliminatórias para a Copa de 74. Vitórias vieram e resultados foram eficientes para uma classificação indiscutível. Porém faltava algo mais. Faltava um futebol vistoso, bonito, que a dupla Ajax-Feyenoord conseguiram trazer ao futebol holandes. Õ objetivo era o tão sonhado titulo mundial. A tacada de mestre da federação foi demitir o treinador tcheco para trazer logo o cara que implantou no Ajax a ideia de "Futebol Total". Rinus Michels foi chamado e assumiu em conjunto a seleção e o Barcelona, coisa para poucos. Como que a equipe foi montada, porque ele escolheu cada um dos 22 jogadores? Próximo post falarei tudo. Abraços!

Fontes de pesquisa:

http://imortaisdofutebol.com/2013/07/20/esquadrao-imortal-feyenoord-1968-1974/
http://rdfc.com.ne.kr/int/ned-intres-1970.html
http://timhi.wordpress.com/2010/09/17/aja-1973/
http://imortaisdofutebol.com/2012/04/10/esquadrao-imortal-ajax-1970-1973/
http://www.theguardian.com/football/blog/2013/may/22/great-european-cup-teams-ajax
http://wp.clicrbs.com.br/prelecao/2010/03/02/o-futebol-total-do-carrossel-holandes/






terça-feira, 28 de janeiro de 2014

ESPECIAL HOLANDA 1974: A ARTE DE UM CARROSSEL

Continuando a minha série de posts sobre o Carrossel Holandes, falarei sobre como foi a estadia vitoriosa de Michels no Ajax, como ele começou a desenvolver o até então embrionário "Futebol Total" e analisarei a evolução da equipe dentro desse contexto:

PARTE 2: RINUS MICHELS E AJAX: CASAMENTO PERFEITO

Michels estreando no Ajax - Fonte: Site oficial do Ajax

Contratado em 1965, com o time lá embaixo após a saida de Vic Buckingham, Rinus Michels chegou com um ímpeto bem diferente na equipe. Vendo que a situação não estava das melhores, um elenco pouco renovado e com pouca ambição, o técnico logo tratou de mudar a filosofia de treinamento que se tinha no Ajax. De treinos mais soltos e descontraídos, passou-se a ter sessões mais pesadas, uma exigência de disciplina muito maior em prol do coletivo, e um treinador muito mais metódico e rígido, contrastando muito com o estilo brincalhão do Michels jogador e lembrando um pouco o jeitão de seu ex-treinador Jack Reynolds. Com isso, ganhou o apelido de "De Generaal" por seus comandados e que seguiu para todo o resto da sua carreira.

Não foi só o método de treinamento que mudou. Michels vendo que o modelo de jogo anterior estava ineficiente logo tratou de trocar tudo. Do tradicional W-M (3-2-2-3) inglês, que já estava em decadência nos anos 60, passou para o então esquema da moda 4-2-4 que a seleção brasileira de 1958 utilizou e fez sucesso. Observe abaixo como a troca influenciou e muito na ocupação do terreno:



Note como o W-M (em branco), apesar de teoricamente ter superioridade numérica no meio campo, prejudica-se na ocupação dos espaços. A pouca amplitude (largura) do meio campo faz com que a equipe gere muitos espaços no lado oposto (espaços claros nas laterais). Já na defesa (círculo em amarelo), ele gera uma situação de 1 x 2 (1 zagueiro contra dois atacantes centralizados), o que complica e muito a marcação, na época ainda individual, precisando puxar um jogador do meio campo para ao menos igualar numericamente, o que já não é o ideal.

Já em relação ao jeito de jogar, Michels implantou o ideal de Reynolds. Inspirado na Hungria vice-campeã de 1954 comandada por Gustav Sebes, usou-se de um futebol ofensivo, de toque de bola, o "pass-and-move", mobilidade, circulação pelos dois lados visando a tomada do campo adversário. Modelo que levou o time a uma grande arrancada e ao título holandês de 1965-1966. Por ganhar o campeonato, tiveram o direito de disputar a Champions League.

Champions essa que faria esse Ajax dar o primeiro susto no continente europeu. O placar agregado de 5-1 ao gigante da Inglaterra Liverpool mostrou o primeiro espasmo do sucesso que estava por vir. Abaixo, como Rinus montou a equipe, que já contava com um certo gênio que houvera sido promovido dois anos antes, um tal de Johan Cruyff. Notem como os esquemas teoricamente se encaixavam e como o toque de bola rápido e a movimentação exigida pelo técnico fez a diferença contra um time de futebol mais direto como era o Liverpool:


O pressing e a troca de posições intensas que viriam a caracterizar o "Futebol Total" ainda não eram vistos, mas já começavam a dar seus primeiros passos. O primeiro passo de Michels que viria a possibilitar esse inicio de crescimento foi, por incrivel que pareça a contratação de um jogador. Com a saida do capitão Soetekouw após ter feito um gol contra na mesma Champions de 66, o Ajax foi atrás de um novo zagueiro e trouxe o iugoslavo Vasovic.

O libero viria, junto com Michels, a elaborar um conceito que ninguém havia utilizado ainda e que atualmente é muito utilizado. Jogador de muita inteligencia, passou a se utilizar de um simples movimento. Ele, como último homem da equipe, ao invés de correr para trás para defender a meta, ia para frente pressionar o adversario com a bola antes do passe final. Era o primeiro esboço da famosa LINHA DE IMPEDIMENTO que viria a ser uma das principais armas do Carrossel Holandês.

Ultimo homem pressiona o portador e os outros dois se alinham dando um passo a frente antes do passe final.

Esse movimento viria a ser visto com muita ressalva pelos seus companheiros, mas apos verem a eficiência dele, passaram a facilitar e trabalhar para que a linha fosse mais efetiva ainda. Com esse recurso, o campo efetivo de jogo para os adversários ficou bem reduzido e dificultou muitos adversários.

Além de Vasovic, outro ótimo fator individual que ajudou no desenvolvimento do "Futebol Total" foi o estouro da então promessa Cruyff. O jovem começava a se destacar com uma genialidade fora do comum, habilidade, explosão, técnica e capacidade de raciocínio velocíssima. Em 1967, o craque foi o artilheiro do campeonato com 33 gols e se tornava rapidamente o líder do time, além de levar para dentro de campo as recomendações e táticas de Michels, com quem se dava muito bem e discutia sobre fundamentos e espaços do campo constantemente.

Agora, vocês devem estar pensando. Falou-se da LINHA DE IMPEDIMENTO, falou-se do FATOR CRUYFF, dois grandes influenciadores desse time. E as tão famosas e revolucionárias TROCAS DE POSIÇÕES, qual foi o motivo de elas começarem a ocorrer?

Primeiramente, recorramos a dois acontecimentos, por sinal duas finais de Champions seguidas. 

Primeiro caso: Temporada de 1967-1968, final entre Internazionale e Celtic. O time italiano, do mito Helenio Herrera, do famoso Catenaccio, da defesa solida com um líbero por trás de três defesas venceu jogando bem atrás o jogo de passes escocês. Michels assistiu a partida e tomou notas. Uma delas ficou guardada para ele: "Uma defesa com bons zagueiros e bem posicionada só poderia ser quebrada com ondas de ataques massivos". E ficou com uma pergunta na cabeça: "Como fazer uma boa estrutura defensiva sofrer com essas ondas?"

A resposta foi simples, mas a partir da mesma surgiu um novo problema. Como escreveu em seu livro Teambuilding: Road to Sucess: "Tentei arranjar maneiras de conseguir quebrar aquelas barreiras [...] Eu tinha que fazer jogadores de meio e de defesa participarem das ações ofensivas para poder complicar a vida deles. Parece fácil dizendo, mas é um longo caminho a percorrer, já que o mais difícil não é ensinar um lateral a atacar - eles gostam disso - mas sim arranjar e convencer alguém da frente a cobrir o espaço que ele gerou atrás."

A partir da temporada 68-69, viu-se um time muito mais fluido no campo. Trocas de posição tanto horizontais como verticais eram vistas no campo. Podíamos ver o ponta Swart vindo cobrir uma subida do lateral Suurbier, o meia direito Neeskens vir apoiar o lateral esquerdo Van Duivenbode, dentre outros exemplos. Apesar da grande dificuldade inicial em fazer os da frente terem essa consciência, conseguiu-se atingir um nível de COMPENSAÇÕES POSICIONAIS eficiente dentro do 4-2-4 que Michels propunha, com jogadores engajados dentro da ideia de ajudar o companheiro que atacou, cobrindo seu espaço. Surgia aí também mais um conceito que a seleção holandesa viria a usar e abusar na copa: o de ECONOMIA DE ENERGIA, esse que explicarei mais a fundo a frente.

O nível de futebol apresentado foi tão bom que fez com que o Ajax chegasse a final da Champions League do ano. Chegamos ao segundo caso. Milan e Ajax se enfrentavam em Paris. Ambos estavam escalados assim:


Final de jogo, 4 a 1 para os italianos e decepção holandesa. Após tentar insistir no esquema por mais um ano, num empate com o Feyenoord, Michels viu seu time tomar gols que exploraram os dois maiores defeitos de seu sistema de jogo 4-2-4: a recomposição e a inferioridade numérica no meio campo. Vendo isso, usou a perda do título e o empate com o maior adversário como feedback e reajustou seu Ajax recuando um jogador da frente para o meio campo, seguindo os passos do próprio Happel, treinador do rival. Fez-se um teórico 4-3-3 (o sistema que seria a base do Carrossel), que ocupava melhor os espaços do campo, facilitava mais a permuta de posições e adicionava um jogador ao terreno central. Disse teórico pois ele fez uma outra modificação que viria acrescentar e muito ao domínio do campo nas áreas medianas. Rinus estimulou um dos zagueiros, normalmente o parceiro de Vasovic a tomar posições mais adiantadas no terreno em relação a linha defensiva. Com isso, ganhava-se mais um homem no meio e facilitaria-se a conquista do mesmo, formando uma espécie de 1-3-3-3. 



Soma-se essas mudanças táticas a uma renovação no elenco. Limpou o elenco de jogadores que vinham produzindo pouco como o goleiro Bals, o lateral Van Duivenbode, os volantes Pronk e Muller e o atacante Klaas Nuninga, para trazer o bom goleiro Stuy, o bom volante Haan, o ótimo meia Muhren e duas peças que viriam a se tornar chaves nesse Ajax e futuramente na seleção Holandesa: subiram o promissor lateral Ruud Krol e o ótimo meia Johan Neeskens, que viria a ajudar no desenvolvimento de um outro conceito que marcou esse time.

Ele era notável por perseguir ferozmente seus adversários, apertando-os para tentar a recuperação da bola a qualquer custo, chamando seus companheiros para ajudar a dificultar a progressão deles, seja lá onde fosse, em seu campo ou no do adversário. Veja abaixo uma imagem que resume tudo, com ele se atirando a frente da bola para tentar pega-la de volta:



Os jogadores da equipe holandesa viram a entrega que Neeskens dava, e ao ver a eficiência, todos passaram a fazer o mesmo e ajuda-lo quando eram chamados. Somando essa marcação mais firme feita por todos em busca da recuperação da bola (cerrando espaços próximos ao adversário com a pelota) à linha defensiva muito alta quase situada no meio campo, consequência da movimentação de Vasovic, geraram-se dois conceitos que viriam ser a tona de muitos modelos de jogo atuais: o PRESSING e a MARCAÇÃO EM BLOCO ALTO. Dois conceitos que, quando realizados em conjunto, reduzem e muito o campo de atuação do adversário. Prestem atenção nessa dupla de prints abaixo como o Ajax sufoca o adversário no seu campo, estimulados pelo posicionamento avançado de sua defesa e pela incessante vontade de ter a bola nos seus pés:


 Após uma definição melhor dos conceitos citados e uma maturação do modelo de jogo e dos jogadores da equipe, os frutos começaram a ser colhidos em âmbito internacional. Após dominar a Holanda no quatriênio 65-66, 66-67, 67-68 e 68-69, e estimulados pelo título europeu do rival Feyenoord em 1970, o Ajax foi com tudo para ganhar a Champions do ano seguinte. E não deu outra: título em cima do estreante em finais Panathinaikos e glória continental.

Time da final - Krol fora, Cruyff com liberdade para sair da direita e flutuar o campo todo dando campo para o improvisado Neeskens subir e um Van Dijk com bom faro de gol. Fonte:  inthefreerole.com

Após o título, o time relaxou. As cobranças do "Generaal" ficaram mais fortes e isso gerou um desgaste no elenco. Antes que tomasse maiores proporções, Michels recebeu uma proposta do Barcelona e partiu para a Catalunha, encerrando seu ciclo no clube. Mal sabia ele o que 1974 lhe reservava e como o desenvolvimento de suas ideias no "laboratório Ajax" e do "Futebol Total", onde o time tinha condições de ter os 10 de linhas atacando e defendendo com alta intensidade, seria de extrema importância para a criação do que muitos chamam de maior time da história. Antes de terminar o post, fico com a citação de Barry Hulshoff, zagueiro daquele Ajax, definindo em poucas palavras esse estilo de jogo:

 "As pessoas não conseguiam ver que as vezes fazíamos coisas automaticamente. Isso vem do entrosamento de jogar junto por muito tempo. O futebol fica melhor quando fica instintivo. Crescemos juntos como equipe com esse modelo de jogo. Futebol Total significa que um jogador supostamente de ataque pode ajudar na defesa. Você gera espaço, e um companheiro o ocupa. E se a bola não chega, você sai desse espaço e outro companheiro irá ocupá-lo."

Na próxima parte, analisarei o processo de formação da Laranja Mecânica, as duas equipes bases que a formaram e como foram os anos que antecederam aquele sucesso. Abraços!

Por Gabriel Daiha

Fontes:

http://www.holdingmidfield.com/?p=629
http://imortaisdofutebol.com/2012/04/10/esquadrao-imortal-ajax-1970-1973/
http://www.theguardian.com/football/blog/2013/may/22/great-european-cup-teams-ajax
http://inthefreerole.com/tag/rinus-michels/














sábado, 25 de janeiro de 2014

ESPECIAL HOLANDA 1974: A ARTE DE UM CARROSSEL

              Primeiramente, antes de começar o post, gostaria de esclarecer que preferi não seguir com a série METALINGUISTICA TÁTICA, pois não me senti com base o suficiente para poder realiza-la. Em conjunto com o site A Prancheta Tática, na qual sou colunista, resolvi escrever esse especial sobre essa magnífica seleção holandesa que revolucionou o futebol. Demandou um estudo intenso e prazeroso de 1 semana e meia, mas tenho certeza que o trabalho não será em vão e que se produzirá bom material. Começarei com um pouquinho de história nesse primeiro de inúmeros posts que farei sobre o Carrossel Holandês, contando como tudo começou. Disfrutem! 

PARTE 1: Como tudo surgiu?


Jack Reynolds - Fonte: Wikipedia

         1945. O inglês Jack Reynolds, considerado pai do futebol holandês, voltava para a sua terceira passagem no time da capital Ajax. Multicampeão na equipe nas outras passagens, voltava para tentar resgatar o caminho dos títulos, estes que há um tempo o time não conquistava. Na sua bagagem, trazia um conceito de jogo diferente, ainda não visto no mundo, e que estava em seu estágio embrionário. Baseava-se num estilo de futebol ofensivo, intenso e que valorizava a troca de passes.

            Com o objetivo de facilitar a incorporação dos jovens que subiam das categorias de base, Reynolds pediu a direção do clube que todos os outros times jovens jogassem com a mesma filosofia citada acima que ele trouxe e que, nas outras passagens, havia se desenvolvido no time principal. Mal saberia ele que seria um desses pupilos que fariam sua ideia tomar corpo e fazer história no futebol mundial.
             
           Datava-se de 9 de junho de 1946, e o time do Ajax tinha um jogo contra o ADO Den Haag pela Eredivisie. O artilheiro do time, Han Lambregt havia se lesionado e o técnico precisaria promover a estreia de um jovem promissor, chamado Rinus Michels. Um atacante de muita força, forte no cabeceio e que era muito elogiado pela sua vontade de trabalhar em prol do time. O Ajax venceu o jogo por 8 a 3, e o jovem centroavante fez 5 gols. Nascia um fenômeno?

Michels de braços levantados comemorando gol pelo Ajax. Fonte: Imortais do Futebol

             Não. Dotado de pouca técnica, Michels não estourou no futebol. Apesar da boa média de gols, fez 122 gols em 264 jogos, foi prejudicado por um então amador futebol holandês e não ganhou projeção internacional. Na seleção, atuou em míseros 5 jogos, sem marcar gols. Aposentou-se em 1958, com 30 anos, tendo uma carreira curta encerrada devido a uma lesão nas costas que viria incomodá-lo o resto das suas vidas. Começava ali a carreira do futuro melhor técnico do século, como a FIFA o premiou em 1999.

             Nesses 5 anos que antecederam a sua estreia como treinador do Ajax, Rinus treinou times de pouca expressão na Holanda, onde ganhou torneios regionais com o JOS (1960-1964) e o AFC (1964-1965). Enquanto isso, o Ajax, após o título na temporada 59-60 com Vic Buckingham, não conseguia se estabilizar com um chefe no comando e ficou na seca durante esse tempo. 

              A beira do rebaixamento na temporada 1965-1966, Buckingham foi demitido e a direção resolveu apostar no ex-jogador para tentar reerguer o time do rebaixamento. No proximo post, escreverei sobre essa passagem histórica de Rinus Michels no Ajax e como aos poucos ele foi implantando essa filosofia que futuramente viria a ser apelidada "Futebol Total". Abraços!
             
Fonte:

http://www.theguardian.com/football/blog/2013/may/22/great-european-cup-teams-ajax
http://en.wikipedia.org/wiki/AFC_Ajax
http://en.wikipedia.org/wiki/Rinus_Michels
              

domingo, 29 de dezembro de 2013

METALINGUÍSTICA TÁTICA

A ARTE DAS ANALISES ALÉM DO SENSO COMUM


          Terminada a série Chile estava pensando no que ia fazer. Não sabia se analisava uma nova equipe (tenho alguns planos), ou se começava a tentar explicar coisas básicas das minhas analises. Optei pelo segundo caminho, já que muitos não compreendiam como eu fazia esses estudos, que por incrível que pareça não são tão complexos, porem demandam vontade e esforço. Nessa série de posts que farei, explicarei tudo o que faço, para facilitar a leitura dos próximos posts.

             Um certo professor meu cansava de dizer nas aulas que: "Quem não sabe conceito, não sabe N-A-D-A". E se eu me disponho a escrever sobre esse assunto, é porque algum conceito dele eu estudei ou ao menos desenvolvi. Tentarei passar o que aprendi em leituras de meses em pequeníssimos posts para que a leitura fique agradável.

             Podemos considerar que analisar taticamente um time é uma ciência, e toda ciência tem um método. É a analise desse método cientifico "tático" que farei.

              Nesse primeiro post, que dividirei em duas partes, explicarei os elementos físicos que me chamam a atenção nas análises e no que eles influenciam nelas:

PARTE 1: ELEMENTOS FÍSICOS DO FUTEBOL


A) ELEMENTOS CONCRETOS

            Para a existência de um jogo de futebol, três são os elementos físicos concretos que devem estar presentes e que são visiveis durante o jogo: a BOLA, o JOGADOR e o ESPAÇO. Vejamos cada um separadamente inicialmente:

1) BOLA


a) DEFINIÇÃO BÁSICA: É o instrumento utilizado no jogo. Através de chutes, os jogadores tentam colocar a bola dentro da baliza e os goleiros, que podem utilizar as mãos, tentam evitar que ela entre.

b) NO QUE ELA INFLUI NO JOGO: Todos querem ter a sua posse. O time que está com a bola, além de buscar coloca-la no gol adversário, evita com que o outro time faça gols nele.

c) NO QUE ELA INFLUI TATICAMENTE: Por ser objeto de desejo, a área ao em torno da bola, seja lá onde ela esteja, é normalmente a mais densa (cheia de jogadores) do campo. Muitos técnicos elaboram sistemas de marcações, jogadas ofensivas, decisões rápidas a serem tomadas, tudo isso em função do posicionamento da bola. Fundamentos técnicos, como o passe, o chute, são todos desenvolvidos de acordo o movimento da bola após a realização do mesmo.

2) JOGADOR 

a) DEFINIÇÃO BÁSICA: É a unidade fundamental do jogo. É o operante das decisões, é quem tem a bola a seus pés e que, ao lado de dez companheiros, tenta fazer gols.

b) NO QUE ELE INFLUI NO JOGO: São 11 jogadores para cada lado, sendo 10 de linha e 1 goleiro, distribuídos ao longo do campo de acordo com o planejamento do treinador. São eles os protagonistas do espetáculo.

c) NO QUE ELE INFLUI TATICAMENTE: Por serem os protagonistas, são eles que tomam as decisões quando estão com a bola. Essas decisões (padrões de comportamento), sejam elas individuais ou coletivas, são o que norteiam a estratégia de um time para ganhar o jogo. Suas movimentações ao longo do campo, com e sem a bola, são os principais alvos das minhas analises. E por estarem sempre com a bola, tambem são alvos nas montagens dos sistemas ofensivos e defensivos dos adversários.


3) ESPAÇO


a) DEFINIÇÃO BÁSICA: É o local aonde o jogo é realizado. Nele, os 11 jogadores e a bola se colocam e a partida é realizada. Abaixo, as medidas padrão FIFA:

- Em partidas OFICIAIS: Comprimento – Min. 90m / Max. 120m. - Largura – Min. 45m / Max. 90

- Em partidas INTERNACIONAIS:
Comprimento – Min. 100m / Max. 110m - Largura – Min. 64m / Max. 75

b) NO QUE ELE INFLUI NO JOGO: No espaço, os jogadores progridem com a bola, circulam, trocam passe e correm. Com a lei do impedimento, o comprimento do ESPAÇO EFETIVO de jogo (local onde pode ser jogado a bola) diminui-se relativamente, sendo-se situado entre a linha de fundo da metade defensiva do time, até o último jogador da equipe adversária posicionado.

c) NO QUE ELE INFLUI TATICAMENTE: A ocupação efetiva dos espaços é a maior paranoia dos treinadores. Eles quebram a cuca, planejam maneiras para que a sua equipe ocupe melhor todos os locais disponiveis do campo de maneira racional, em todas as fases do jogo. Sistemas de marcação, jogadas ofensivas, bolas paradas, tudo usa o espaço como referencia.

B) RELAÇÕES ENTRE ELEMENTOS

              Apesar da análise separada, todos esses elementos são interconectados. De tão dinâmico que é o futebol, não ha como observar um, sem levar em conta o outro. Na visualização do jogo, os indivíduos, sejam eles torcedores, jogadores, ou treinadores, acabam tendo um deles como referencia prioritária, o que é natural da mente humana.

               Essa ordem de preferencia nas referencias é algo muito determinante na estratégia de uma equipe. Tomadas de decisões, sejam elas coletivas ou individuais, todas levam esses fatores em conta. Vejamos um belo exemplo abaixo:


       Voltando a um frame da minha série que fiz com o Chile, dou um belo exemplo de como uma tomada de decisão usou esses elementos básicos como referencia. O comportamento INDIVIDUAL do zagueiro Rojas mostrado acima evidenciou que a primeira referencia que ele teve, ao sair de seu espaço onde cobre para marcar o adversário mais em cima, foi o JOGADOR COM A BOLA, e não o ESPAÇO. Isso facilita na hora de tirar conclusões de como o jogador x marca, de como o time marca, como o time ataca, dentre outros fatores.
             
        Tendo esses três primeiros fatores como referencia, observando as suas prioridades de acordo com o que ocorre no jogo, lembrando-se sempre que padrões de comportamento devem mostrar repetições, conseguimos tirar conclusões e, combinado com os conceitos a serem aprendidos, conseguimos definir os aspectos táticos principais de uma equipe de futebol. No próximo post, analisarei os conceitos físicos abstratos do futebol e como eles influenciam as analises. Abraços! 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ANALISE COMPLETA: O CHILE DE DON SAMPAOLI


PARTE 5 (2): O MODELO DE JOGO CHILENO


          Na segunda metade da última parte da série Chile, analisarei a fundo o modelo ofensivo que norteia a seleção chilena. Time de futebol vistoso, a Roja encantou e fez muitos gols na fase final das eliminatórias sul-americanas. Já deixando claro aos preguiçosos (a maioria), esse post será longo, já que não tem como avaliar um modelo de ataque em 3 parágrafos.

1) PRINCÍPIOS BÁSICOS OFENSIVOS DA EQUIPE CHILENA

        Para todo modelo de jogo, existem princípios e sub-princípios que norteiam as tomadas de decisões dos jogadores e da equipe como unidade. No caso dos de ataque, os PRINCÍPIOS se dividem nos seguintes elementos:

- CIRCULAÇÃO DA BOLA: Esse elemento determina como a bola passa pelos jogadores e pelos setores da equipe na produção do ataque. No caso desse time, a armação das jogadas tende a começar pelo meio nos setores mais recuados através dos volantes e dos meias para que se chegue às laterais nos alas e nos pontas em posições mais avançadas, através de passes curtos e verticais (que visam a progressão da bola para a frente).

Bola conduzida pelo meia no centro vai ser jogada ao lateral para que ele cruze ou entre na área

- RITMO DA EQUIPE: Esse elemento determina a velocidade que o time executa suas ações no campo. A equipe se usa de um ritmo muito rápido e muito intenso, que deixava os adversários acuados nos inícios das partidas. Porém, foi um fator que prejudicou um pouco o início da Era Sampaoli. A falta de um jogador que tivesse a capacidade de reduzir o ritmo da equipe em momentos de vantagem fez com que o time perdesse a posse de bola em alguns jogos devido a precipitação de seus jogadores. Com a entrada de Valdívia no time titular e as constantes aparições de Pizarro, o time conseguiu ter mais pausa e mais equilíbrio nesse aspecto.

- MOBILIDADE: Quando em posse, os jogadores da equipe chilena buscam dar opções de passe em progressão, muitas vezes formando os famosos triângulos que muitos dizem ser a essência do futebol moderno e que caracterizou o sucesso do Barcelona. Veja abaixo exemplos de como isso ocorria frequentemente:

No jogo contra a Bolívia, um belo frame mostrando esses triângulos

No jogo contra o Uruguai, um flagra de triangulação na esquerda. Observe como Aranguiz se desloca a frente para facilitar a progressão da bola.

- AMPLITUDE: Esse conceito se explica pelo modo que a equipe ocupa horizontalmente o campo (de lateral a lateral). Uma equipe pode ser larga, quando usa o máximo do espaço lateral do campo em todos os setores; ou estreita, quando posiciona seus jogadores laterais mais fechados. No caso do Chile, podemos observar uma equipe que abusa desse conceito, abrindo seu campo ao máximo limite na defesa, no meio e no ataque, o que condiciona a maiores explorações das laterais. Observe nesses ataques:


Os dois laterais bem abertos, abrindo o leque de opções no ataque


Novamente os dois laterais bem abertos, abrindo campo e esgarçando a linha defensiva adversária, que tem que se preocupar com eles.


- PROFUNDIDADE e PENETRAÇÃO: Conceitos que juntos abordam a ocupação longitudinal (de gol a gol) da equipe no campo e a capacidade da mesma em entrar nas linhas defensivas adversárias. Eles são muito bem explorados em conjunto pela Roja. A linha de defesa chilena, quando o time possui a bola, sempre sobe até mais ou menos o meio campo para que em caso de perda da posse possa se compactar para recuperar a bola rápido. 
             Já na parte da frente, a responsabilidade pela dupla profundidade-penetração no ataque fica por conta dos atacantes, com as entradas em diagonal sem a bola e com os duelos 1 vs 1 com a bola; dos meias, que exploram o espaço entre as linhas de marcação adversárias sem a bola e a conduzem na intermediária adversaria quando tem a bola; e dos volantes, com as chegadas de trás aos espaços livres da defesa adversária sem a bola e com arrancadas em direção ao gol quando tem a pelota. Veja os casos abaixo:

Com Vidal sendo escalado na função de falso 9, ele que fica responsável por tentar empurrar a linha de defesa adversária para trás, gerando PROFUNDIDADE

O mesmo Vidal (circulado de verde), agora escalado de meia do 4-2-1-3, explorando as costas da linha de marcação do meio campo da equipe boliviana, o famoso "espaço entre-linhas". Os atacantes, mais a frente, tentam atacar as costas da defesa, aprofundando a ocupação do espaço de jogo (área interna que o time ocupa) da equipe.

2) MOVIMENTAÇÕES OFENSIVAS COMUNS: OS SUB-PRINCÍPIOS

          Os sub-princípios se definem por padrões de comportamento que abordem situações mais específicas no jogo. Para facilitar a análise deles, os dividirei de acordo com as fases de jogo no ataque, começando desde trás:

a) Saída de bola ou fase 1 ofensiva:

      Para conseguir impor o estilo de jogo ofensivo de circulação curta trabalhada, é necessário que a bola saia limpa desde trás, sem chutões ou passes mascados. Com jogadores que sabem manejar bem a pelota, passando pelo arqueiro Bravo, chegando na primeira linha com Medel e Gonzalez, a bola tende a sair com mais qualidade dali de trás. Porém, o segredo do Chile nessa fase está no meio de campo e se dá pelo nome de Marcelo Díaz. Volante de boa técnica, tem boa visão de jogo e qualidade refinada no passe curto, o que lhe permite que ele sempre tome a decisão correta para a equipe nessa parte, o que é essencial para que a bola chegue a um jogador com mais liberdade.
        Mas uma andorinha sozinha não faz verão, ja dizia o bom ditado. Todo sistema defensivo apresenta um padrão de comportamento nessa fase de jogo. Ele varia de acordo o número de homens que Sampaoli escala atrás. Observem os dois casos, ja citados no post das analises individuais:    

                

             Primeiro, abordarei o segundo caso. Nele temos uma equipe escalada com linha de 3 atrás. Com isso, o zagueiro central se torna referencia na saída, os zagueiros laterais abrem bem e permitem ter um amplo espaço para dificultar a pressão adversária. Diaz entra logo como a primeira opção de passe, se movimentando atrás da primeira linha de pressão adversaria a fim de que o central logo jogue nele a bola para que ele faça a progressão limpa dela.

            Já no primeiro caso, abordamos uma equipe escalada com linha de 4 atrás. Com isso, Diaz se mete entre os zagueiros, toma conta do espaço central, provoca a abertura dos defensores aos lados e permite a subida dos laterais a linha de meio de campo, a famosa "saída lavolpiana", dada em homenagem a Ricardo La Volpe, promotor da ideia. Ela também dificulta a pressão adversaria e permite que os meias e volantes da equipe participem mais ativamente da construção da saída, pois eles recuam para dar a opção de passe a Diaz. Observem como Bravo, também participante ativo dessa fase de jogo logo aciona Diaz, que se posiciona centralizado:


Uso de Bravo como apoio e Diaz como opçao de passe

b) Construção de jogo ou fase 2 ofensiva

           Assim como citei no meu post la atrás sobre a Universidad de Chile que inspirou essa seleção chilena, dividirei a analise da construção de jogo, fase onde a equipe elabora a jogada no meio de campo, entre comportamentos no meio e comportamentos na lateral:

b.1) Comportamentos no meio

- TRIANGULO/LOSANGO CENTRAL: Sampaoli gosta de utilizar ao menos um triangulo no meio campo, já que essa forma é um ótimo jeito de oferecer linhas de passe curtas e de superar as linhas de marcação adversárias. Quando utiliza o 2-1 (triangulo de base baixa), o "1" tende a se movimentar no espaço entre-linhas do adversário, como podemos ver abaixo:


           Já quando usa o 1-2, seja com o triangulo de base alta, seja com o losango, um dos jogadores da base tende a recuar para fazer a dobrada e o outro tende a explorar o entre-linhas como podemos ver abaixo:

Nesse print, apesar de não ter conseguido tirar as imagens de Aranguiz e Diaz, que estavam mesmo mais atrás, podemos ver Vidal explorando o espaço

            Também podemos ver o posicionamento em 1-2 muitas vezes quando Diaz consegue conduzir com liberdade a bola pelo meio:


- RECUO DOS JOGADORES DE FRENTE: É comum de se ver nas equipes de Sampaoli os jogadores de frente vindo buscar jogo nas intermediárias para gerar espaços nas defesas adversárias que jogadores de trás (normalmente os volantes) podem vir a atacar. Podemos ver isso em diversas aplicações, seja no uso do falso 9 com Valdívia, seja nos retornos de Vargas e Sanchez para vir buscar jogo em zonas mais centrais. Vejamos:

Nesse frame, Valdivia (circulo preto) volta mais atrás para dar opção de jogo. Na função de falso 9, ele sai do espaço que um 9 tradicional ocuparia (trapézio) e recua para armar. Observe como o zagueiro venezuelano (verde) fica em duvida se sai de sua posição ou se persegue Valdivia.

Já nesse print, Sanchez conduz a bola pelo meio e Valdívia (10), que normalmente ocupa esse espaço, entra no espaço natural de Sanchez.

- CHEGADA DOS VOLANTES: Apesar de ja ter destacado isso em outras partes do post, prefiro deixar claro a importância dessa movimentação, principalmente feita por Vidal e por Aranguiz. A chegada de trás sobrecarrega a defesa adversária e é dificílima de se marcar. Observem como eles chegam com liberdade:

Nessa jogada, com a saída de Valdivia, Aranguiz (preto) logo tratou de atacar o espaço que ele gerou, chegando com facilidade a frente

Nesse print, Vidal (amarelo) chega com muita facilidade vindo a frente, aparecendo quase que como um centroavante. Com o uso de Valdivia, ele que passou a ser a referencia aérea ofensiva, com essas chegadas de trás.

b.2) Comportamentos nas laterais

- ULTRAPASSAGENS CONSTANTES DOS LATERAIS/ALAS: Em um time que tende a jogar pelos lados, os avanços dos laterais é quase que obrigatório para que ele flua dessa maneira. Com isso, eles tendem a ultrapassar os jogadores de frente, chegando a linha de fundo com frequência para centrarem a bola na área. É comum ver cenas de 2 x 1 nos setores do lado. Veja como isso ocorre dos dois lados:

O lateral direito Isla (preto) faz a ultrapassagem no seu lado chegando a linha de fundo

Idem para Mena (preto), ultrapassando pela esquerda

- INCORPORAÇÃO DOS HOMENS DE MEIO AO LADO: Para sobrecarregar o lateral adversário, é comum de se ver nessa equipe a chegada dos homens de meio, sejam eles volantes ou meias aos lados para fazer número nessa área do campo.

Vidal (amarelo) cai pelo lado direito

Valdívia (preto) cai pelo lado esquerdo

- ABERTURA DOS CORREDORES LATERAIS: Atitude comum em muitos times, os jogadores mais a frente se movimentam de fora para dentro para puxar o lateral adversário para o meio, ou então puxando o zagueiro do lado, abrindo espaço/corredor na defesa para o lateral/ala vir de trás com liberdade.

Atacante puxa zagueiro para o meio (setinha amarela) e abre espaço para que Diaz (21) passe entre ele e o lateral adversário. Isla (la em cima) ataca esse espaço e chega a linha de fundo

Vargas diagonaliza e abre espaço para Mena 

c) Transição ofensiva ou contra-ataques

                Transição ofensiva se dá pelo momento em que o time rouba a bola e começa um novo ataque. Dizem que o futebol moderno tem nas transições a sua principal fundamentação. Cada vez mais elas aceleram e ficam mais difíceis de se marcar. No caso da seleção chilena, ela é feita de maneira muito rápida, com alas e pontas voando pelos lados, com no mínimo 1 de cada lado e jogadores dando opção no meio ao portador da bola, que normalmente puxa esse "contra-ataque pelo meio. Observe os dois casos:

Como a bola veio pela direita, correu o ala desse lado (Medel), o ponta do outro (Vargas), Valdivia com a bola e Sanchez dando opção.

Nesse frame, o contra-ataque esta sendo puxado pelo lado. Três aglomeram pelo meio e tem no minimo um aberto de cada lado. 

d) Finalização ou fase 3 ofensiva

             Essa fase de jogo é a que a equipe ja está no quarto final do campo, elaborando o último passe para que se concretize a finalização. E há padrões de comportamento que determinam as ações nessa parte:

- APOIO POR DENTRO DO LATERAL QUANDO PONTA ESTA NA LINHA DE FUNDO: Quando Vargas/Sanchez/Beausejour estão mais abertos com a bola, os laterais entram em diagonal, para não ocuparem o mesmo espaço. Isso fica claro nessa jogada abaixo:


- PASSE NAS COSTAS DA DEFESA: Característica que foi reforçada com a entrada de Valdivia, o passe em ruptura, nas costas da defesa adversária, virou uma grande característica do Chile. Veja nesse lance mais uma entrada de Aranguiz e como Valdívia acionou-o perfeitamente nas costas da linha de defesa:


- "FACÃO" EM DIAGONAL DOS ATACANTES: Explorando a velocidade de Vargas e Sanchez, é muito comum ver essa movimentação em diagonal. Eles caminham em paralelo a linha defensiva adversária e quando o jogador com a posse der o passe, eles atacam as costas da defesa. Veja abaixo a movimentação de Vargas:


- SOBRECARGA NA ÁREA ADVERSÁRIA: Característica pura do Bielsismo, a chegada na área com muitos jogadores é muito comum. Volantes, meias e inclusive alas, chegam para tentar a finalização dentro da área quando o time está com a posse no último quarto do campo pelos lados. Veja:

Observe como o ala oposto Isla chega a área também para tentar a finalização. Volantes como Vidal e Aranguiz e os atacantes também aparecem por lá

         É, eu avisei que o post iria ser longo. Mas foi um belo presente de natal aos apreciadores. Esse é o ultimo post dessa série Chile, que me trouxe muitos elogios e reconhecimento. Acho que deu pra entender como joga a equipe, correto?
                  Aos que lerem esse post, um feliz natal a todos. Comam muita rabanada e se entupam de chester que nem eu farei. Abraços!